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O que podemos aprender com: Reggaeton

As lições poderosas do gênero da música latina que se tornou fenômeno global



despacito reggaeton
Daddy Yankee e Luis Fonsi

Hoje parece improvável, mas até pouco tempo atrás, a maioria dos brasileiros diria que o reggaeton era um ritmo urbano relegado a algumas periferias de países vizinhos. Não só essa seria uma generalização simplista como não seria sequer a ponta do iceberg - ou melhor, da chama caliente - que tomou conta das Américas e do mundo nos anos seguintes. 


É seguro dizer que o ritmo transcendeu fronteiras e se tornou um gigante na indústria musical global. Duvida? Em 2023, o mercado global de reggaeton foi avaliado em US$ 10,14 bilhões. Estima-se que esse valor chegue a US$ 14,78 bilhões até 2028, com uma taxa de crescimento anual de 7,1% - mais do que as mais potentes economias mundiais. Apenas no ano passado, foram 23,5 bilhões de streams no Spotify, 16,8 bilhões no YouTube e 12,1 bilhões no Apple Music.


O Brasil é um caso à parte em termos mercadológicos para a música dos países vizinhos. Embora associem este fato à barreira linguística, nem sempre isso explica o quadro completo.


“Tudo aquilo com que não temos familiaridade pode gerar um estranhamento - um idioma que não falamos ou um gênero musical que não conhecemos, por exemplo. Antes da internet, quando o consumo de massa era ditado apenas pelos veículos de comunicação em massa, havia pouca música em espanhol disponível, e quando vinha, parecia algo muito distante da nossa realidade”, teoriza Guilherme Guedes, jornalista e apresentador do Multishow.

Por aqui, o reggaeton poderia ser chamado de nicho se comparado ao pop global cantado em inglês, mas já faz tempo que já não é mais o caso. Priscila Bertozzi, jornalista e criadora do site LatinPop Brasil, identifica o momento em que tudo mudou.


"Por mais saturada que esteja, Despacito é o ponto da virada. E por uma simples razão: a ida do Luis Fonsi, consagrado no pop latino raiz, balada, romântico, que acabou levando vários artistas para esse mercado. ReikDavid Bisbal, Pedro Capó, Shakira, Thalia são alguns dos nomes premiados e com muito 'pedigree' no mundo latino que acabaram encontrando no reggaetón, no urbano, um nicho a ser explorado”, explica ela.

Embora no Brasil o ritmo ainda não seja dominante, é notório como ele vem crescendo, recebendo turnês de grandes astros como o próprio Fonsi, J. Balvin e Karol G - esta última já lota estádios nos EUA. No maior mercado musical da América Latina, o reggaeton também teve uma fada madrinha - possibilitada pela familiaridade dos brasileiros com sucessos de ondas prévias.


A Anitta é o ponto da explosão, mas o mercado latino no Brasil sempre existiu graças às novelas mexicanas e suas trilhas sonoras, e fenômenos pontuais. Desde 1980, com Menudo, depois com Thalia, Shakira, Ricky Martin, Enrique Iglesias e, por fim, o RBD. O RBD talvez seja o fator de sustentação do mercado nos últimos 20 anos, porque é um ciclo. Parte do público que acompanha esses artistas que explodem de tempos em tempos por aqui acaba ficando curioso e indo atrás de outros nomes, outras músicas, consumindo a música latina da maneira possível em cada década”, analisa Bertozzi.


Shakira Karol G reggaeton
Shakira e Karol G

O que podemos aprender com o reggaeton?


O reggaeton é mais que um gênero musical - é uma identidade de orgulho latino e um estilo de vida. Ele oferece uma série de lições valiosas para artistas de todas as searas criativas. 


Abaixo você confere algumas características que ajudaram a levar a cena de regional para o mundial:


Visão 360º


O reggaeton explodiu quando se profissionalizou. Se nas origens o gênero ainda buscava entender seu lugar e identidade - como qualquer nova sonoridade -, em uma segunda fase havia a liberdade para experimentar e formar aquele novo som. 


Com sua expansão do caribe para o sul, foi ganhando novos contornos, sempre guiados por produções arrojadas. Embora tenha nascido nas periferias, o reggaeton logo se profissionalizou, tanto em equipamentos, quanto em visão de negócios.


"A música latina deixou de ser brega ou excessivamente romântica, aquela coisa muito Luis Miguel, caricata. As pessoas, de alguma forma, entenderam que música latina é nicho, não é gênero. É possível ouvir bom rock, bom funk, bom soul, bom R&B, bom pop, bom trap, e por aí vai, em língua espanhola. Como ponto negativo, a gente pode falar sobre a repetição, a saturação. Hoje, vivemos um momento em que a música ranchera, regional mexicana, tem feito o mesmo movimento do reggaetón de anos atrás, levando vários artistas do pop a gravarem o gênero. A própria Shakira, por exemplo, fez isso no single El Jefe. Porque chegou um momento em que todo mundo estava fazendo reggaetón, sem trazer nenhuma inovação. Quem não tem raízes fincadas na música de calle está experimentando, transitando e lançando coisas fora do mundo urbano”, sentencia Priscila Bertozzi.

Lição: Use a liberdade criativa para expandir a sonoridade. Invista em uma produção que destaca os seus pontos fortes.



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Bad Bunny


Des-pa-ci-to


Devagar e sempre. Foi assim que o reggaeton tomou de assalto o cenário pop mundial.


Inicialmente confinado à cena urbana periférica de Porto Rico, o gênero enfrentou preconceitos sociais e culturais antes de se tornar um fenômeno global. A fusão com outros ritmos, a disseminação através da internet e o sucesso comercial de hits como "Gasolina" (Daddy Yankee) e "Danza Kuduro" (Don Omar) foram cruciais para sua ascensão internacional. Hoje, o reggaeton é amplamente reconhecido e apreciado, transcendendo fronteiras culturais e linguísticas.


Não foi da noite para o dia que esse ritmo conquistou seu público e espaço.


Lição: Tenha persistência. Tudo que é novo não é assimilado de cara. Mas isso não significa que não tenha valor cultural e artístico. Continue plantando sementinhas e a colheita virá.


Valorize as cenas locais


O reggaeton expandiu porque cada país onde tocou passou a desenvolver a própria cena. Se somente porto-riquenhos fizessem canções com aquelas batidas, o reggaeton teria apenas uma cara, um sotaque, um jeito de fazer - mesmo que a ilha tenha gerado alguns dos maiores expoentes do gênero (Daddy Yankee, DJ Playero, Ivy Queen, Bad Bunny).


Quem fala que “reggaeton é tudo igual" é porque não está ouvindo as nuances. A cena de Porto Rico, o berço desse som, é influenciada por ritmos caribenhos como salsa e merengue. Na Colômbia de J. Balvin e Maluma, há muita influência do trap e do hip hop em geral, com um flow que narra as mazelas sociais - e também seduz, claro. Com marcas do reggae e dancehall jamaicano, o Panamá contribui com beats mais acelerados. A bachata se faz presente na República Dominicana, enquanto no México as cenas regionais e tradicionais se mesclam ao mundo do reggaeton.


Como um grande polvo, o gênero ganha capilaridade ao se espalhar. Cada cena local se torna um ecossistema sólido, com artistas, selos e produtores que colaboram e se retroalimentam. 


Lição: Um gênero que abarca outras influências e não ouve os puristas se torna mais rico. Abrace os sons ao redor para criar algo com forte identidade regional. É a partir dessa visão pessoal que se abrem os caminhos para o universal.



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Peso Pluma e Anitta

Valorizando a identidade e a cultura de um povo


O reggaeton soube surfar muito bem na onda de popularidade trazida pelos públicos de artistas como Justin Bieber e Demi Lovato. Mas nunca abriu mão da sua identidade e de dialogar com os fãs que o mantém pulsante.


Os produtores e artistas entenderam desde cedo que não é preciso cantar em inglês para atingir o sucesso. 


"Acredito que o mercado brasileiro tem muito a aprender com o crescimento do reggaeton. Temos uma produção cultural rica e diversa como pouquíssimos outros países no mundo, mas o Brasil parece eternamente preso a glorificar o que vem de fora, e o mercado aqui está sempre correndo atrás. Acredito que podemos bem mais que isso”, destaca Guilherme Guedes.

Lição: Não mude sua identidade para tornar-se vendável. É possível ser múltiplas coisas e cantar em variadas línguas, porém sem abrir mão dos elementos que constituem a sua origem e do seu povo.


Autenticidade e originalidade


Existem muitos motivos que influenciam no sucesso comercial de um artista, e a originalidade é certamente um deles e o mais importante para sua longevidade. O reggaeton tem gerado alguns dos compositores, intérpretes e produtores mais autênticos, cujo som é inconfundível e único.


"Artistas como Bad Bunny e J Balvin incorporam suas raízes latinas e suas experiências pessoais em suas músicas, criando uma conexão genuína com o público”, exemplifica Bertozzi.

Lição: Abrace sua identidade. Seja quem você é e escreva as canções que só você pode escrever, com as suas histórias, bagagem e ponto de vista.


Jogue o jogo


Quem comanda o cenário musical hoje são as plataformas de streaming. O reggaetonero já entendeu isso há tempos.


No auge da sua ascensão ao estrelato global, J. Balvin divulgava singles inéditos a poucas semanas de distância. Atualmente, José aproveita longos períodos de hiato, dedicando-se apenas às turnês ou à família, gerando expectativa sobre quando será seu próximo lançamento. Não há receita de bolo, mas sem dúvida é preciso investir no crescimento das plataformas como Spotify e Apple Music, parcialmente responsáveis por explodir o reggaeton para muito além da América Latina. 


"Há alguns anos vem acontecendo uma espécie de descentralização da música pop, totalmente influenciada pelas plataformas de streaming. A indústria entendeu que seria lucrativo olhar para outras fatias de mercado que não apenas os europeus e os norte-americanos, e o resultado foi a ascensão de fenômenos como o reggaeton”, explica Guilherme, citando outras cenas que beneficiaram, como o Afrobeats da África ocidental e o K-Pop.

Essa constante busca por inovação contribui para a vitalidade do gênero, servindo como inspiração para músicos de outros estilos explorarem novas fronteiras musicais.


Lição: Desenvolva uma estratégia para as plataformas digitais e busque, principalmente, a inserção em playlists editoriais. Elas ajudam a fortalecer o gênero e seu público fiel. Entenda sua lógica de funcionamento, quais estratégias funcionam e quais não. Vá se adaptando e seguindo o fluxo do mercado e da própria carreira.



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Maluma e J. Balvin

Reggaeton com olhar pop e colaborativo


A colaboração é fundamental no reggaeton, com artistas frequentemente se unindo para criar músicas e projetos inovadores. Os produtores também ajudam a fomentar a cena com a sua estética única - e bem disputada. É o caso de nomes como Tainy e Bizarrap, que dominam essa (e outras) linguagens do pop urbano.


Priscila Bertozzi destaca:


"A Rosalía, que teve seu início tão ligado às raízes espanholas, foi outra que soube explorar o momento e deu ao gênero urbano esse ar jovial, pop. Aliás, em uma conversa com a Thalia, anos atrás, ela disse que considerava o que fazia um popetón, a mistura do pop com o reggaetón, a música de calle, mas com todo o aparato comercial, de mainstream, radiofônico e mercadológico".

Essas colaborações ampliam o alcance e a visibilidade de todos os envolvidos, servindo como exemplo para músicos de outros gêneros que desejam alcançar novos públicos e fortalecer suas carreiras.


Lição: Troque figurinhas. Componha e grave com outros artistas, como uma forma de aprendizado e de ampliar seu público, sem falar na possibilidade de sair da zona de conforto criativa.


Abrace os ciclos


O reggaeton é prova viva que há dias de luta e dias de glória. O contrário também acontece: ascensão e queda. Porém, o importante é saber se moldar ao ciclos - tanto mercadológicos quanto estéticos e criativos.


A próxima onda está logo ali. Os artistas com carreiras mais duradouras são aqueles com grande capacidade adaptativa. Não se trata de entrar em toda “modinha”, e sim de encontrar pontos em comum com novas cenas e subgêneros que se desenvolvem.


O melhor exemplo disso é o regional mexicano, atualmente mesclado ao reggaeton e outros gêneros do pop latino.


“Esse é um momento novo, que nós mesmos, que vivemos desse mercado, estamos tateando, vivendo outro momento de virada. Ainda não é possível saber se vai ter a mesma força do reggaetón, principalmente no Brasil, por conta das nossas próprias raízes. O reggaetón, em muitos pontos, se parece com a música brasileira de rua, inclusive pela marginalização. A ranchera flerta muito de longe com o sertanejo do passado. Uma das músicas do ano é Ella Baila Sola, do Eslabón Armado com Peso Pluma, e é regional mexicana com um toque mais pop. É a história sendo reescrita com a mesma caneta que vimos lá em 2017 com Despacito, só mudam os protagonistas”, analisa Priscila Bertozzi.

Lição: Fique de olho nas tendências e se associe àquelas que fazem sentido para a sua marca e a identidade do seu trabalho. Faça escolhas conscientes e as consequências virão: um público renovado e novas possibilidades criativas para explorar.


Aprendizados garantem longevidade


A nova onda de sucesso do reggaeton já dura quase 10 anos. O que poderia parecer uma moda passageira tem se mantido com a ajuda de um ecossistema musical rico e colaborativo. Mais que isso, o gênero furou a bolha e passou a dialogar com outras cenas e públicos. Como consequência, tem se tornado um fenômeno comercial que ganhou nas plataformas e gravadoras poderosas aliadas.


O que faz o reggaeton permanecer não é, necessariamente, o resultado econômico. Embora ele seja o que move a indústria, o maior trunfo dessa cena é usar o que tem de mais precioso: sua identidade, sua cultura e sua gente. Enquanto esses três pilares forem vivos e fortes, o reggaeton poderá continuar a prosperar.


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