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Por dentro da tendência: o hype e os desafios do efervescente mercado do vinil

Quem dava a bolacha como coisa do passado está enganado - e artistas e gravadoras já compraram a ideia.



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“A mudança é a única constante da vida. A habilidade que se tem de adaptar-se a tais mudanças é o que determinará seu sucesso na vida”. Esse Benjamin Franklin sabia de uma coisa ou outra. Se tem uma garantia perene da indústria da música é, também, a sua teimosia em nunca permanecer parada, ao contrário do que dizem seus mais afiados críticos. Prova disso é o retorno do disco de vinil como objeto de desejo e tendência de mercado. O que muitos davam como uma moda passageira, um capricho da nostalgia, vem se mostrando uma força real nas vendas de artistas em todo o mundo. O resultado é o surgimento de selos e gravadoras, dos independentes e artesanais aos mais mainstream, buscando atender à crescente demanda pelas bolachas mais caras das gôndolas do mercado.


Este renascimento do vinil não apenas desafia as previsões de sua obsolescência na era digital, mas também destaca o valor duradouro da mídia física em um mundo cada vez mais dominado por streaming e downloads digitais. Até mesmo fábricas pequenas começam a experienciar altos pedidos para dar conta dos lançamentos mais requisitados.


Otimismo amplia vantagens do vinil




Com a volta da relevância do fã em manter o ecossistema da música com o investimento em lançamentos exclusivos e ingressos para shows, os produtos físicos exercem papel fundamental. Não por acaso, outros formatos, como a fita cassete e o CD, também estão ensaiando um retorno - ainda não se sabe se será tão triunfal quanto o do bom e velho bolachão.


Para entender melhor o significado desse fenômeno para o mercado da música, conversamos com Sylvio Fraga, CEO e co-fundador da fábrica de vinil e gravadora Rocinante, além de músico e poeta. Ele reflete sobre o ressurgimento do LP, seus desafios e seu potencial no contexto atual da indústria musical.


Sylvio Fraga
Sylvio Fraga


"O vinil na verdade, para quem sempre escutou, nunca foi dado como morto. Sempre existiu muita loja de vinil em todos os cantos do mundo", observa Fraga. Ele destaca que o interesse contínuo pelo vinil pode ser atribuído à sua vantagem única sobre o CD, especialmente em relação à arte do álbum. "O vinil tem a capa grandona, a arte do disco realmente tem sentido no LP. No CD é uma coisa muito pequena. E o vinil ele comporta é a mais alta resolução na qual a música foi gravada e masterizada", ele pontua.


Essa capacidade do vinil de oferecer uma experiência mais imersiva e tangível é algo que conquista muitos fãs de música, especialmente em um mundo onde a conveniência digital muitas vezes prevalece sobre a experiência física. "As pessoas que gostam de determinadas bandas gostam de ter alguma coisa física daquela banda", enfatiza Fraga. "Eu acho que é uma tendência na música: você ter os dois extremos, a plataforma de streaming com a música em MP3, num formato mais comprimido, numa qualidade mais baixa, e do outro lado o vinil com a mais alta resolução possível e a capa e as informações e os textos e as fotos", ele sinaliza. Mas é claro que nem tudo são flores.


Desafios na expansão




O vinil, apesar da recente popularidade, ainda enfrenta desafios para se tornar um formato de massa. Desde a escassez de matéria-prima devido a interrupções nas cadeias de suprimentos durante a pandemia de COVID-19 até o aumento da demanda, que sobrecarrega as capacidades de produção das fábricas, são muitas as dificuldades para que a receita da venda dos discos volte a ser de fato significativa. A necessidade de equipamentos especializados e habilidades de fabricação, juntamente com as limitações tecnológicas, também podem dificultar a capacidade das fábricas de atender à crescente demanda por vinil. Estes são desafios que exigem adaptação e inovação para sustentar seu ressurgimento e alcançar uma maior popularidade.


O mercado de álbuns de vinil nos Estados Unidos continua sua notável ascensão, registrando em 2023 seu 16º ano consecutivo de crescimento nas vendas, com 41,3 milhões de EPs/LPs vendidos no último ano, um aumento significativo em relação a 2006. Embora os LPs representem 43% das vendas de álbuns nos EUA, sua participação no consumo de música, considerando streaming e downloads de faixas individuais, é inferior a 5%, mostrando que o vinil ainda está longe de sua popularidade dos anos 1970. Outro dado curioso é que apenas metade dos compradores de vinil possuem um toca-discos, reforçando o papel fundamental da arte de capa e do projeto gráfico no seu apelo comercial.


Iniciativas promovem a cultura do álbum físico




Os amantes do disco têm, hoje, uma referência na causa pela bolacha: a Third Man Records. Seu fundador, Jack White, se tornou um defensor público do vinil e um persistente fiel no potencial artístico e comercial do LP. Fundada em 2001 em Detroit, Michigan, e posteriormente estabelecida em Nashville, Tennessee, a TMR é reconhecida por sua abordagem inovadora e eclética para a produção musical. Além de lançar álbuns de artistas consagrados e emergentes, a gravadora também opera uma loja de discos, estúdio de gravação e prensagem de vinil, destacando-se por sua dedicação à preservação da cultura e ao apoio à comunidade musical independente. 


No Brasil, após a queda pela procura do vinil e a ascensão do CD, a Polysom se tornou a única remanescente na produção dos discos por um bom tempo - tanto que reinou absoluta na América Latina. Hoje, a fábrica não está mais sozinha, com muitas iniciativas de menor porte, como é o caso da Rocinante, de selos como o experimental QTV e até clubes de fãs do formato, como é o Noize Record Club, gerando demandas constantes de um mercado em franca expansão nacional. Embora nem todas possuam suas próprias fábricas, elas servem como molas propulsoras do disco para além dos sebos - outra instituição que tem vivenciado um renascimento. Prova disso é a banca de vinil inaugurada em pela Avenida Paulista, desafiando a noção do que é possível encontrar nos containers cinzentos que povoam as calçadas desse endereço tão icônico.


Nos Estados Unidos, as vendas de discos de vinil superaram as de CDs em 2022, marcando um marco significativo desde 1987. Eventos como o Record Store Day destacam o papel vital das lojas de discos independentes na promoção da cultura musical e no apoio aos artistas e selos independentes.


Essa iniciativa é uma celebração da cultura do vinil e das lojas de discos independentes ao redor do mundo. É uma oportunidade para os fãs descobrirem novas músicas, se conectarem com outros fãs e apoiarem as lojas locais. No Brasil, 13 lojas já estão cadastradas para este ano, em 20 de abril. A data já é aguardada pelos fãs do formato, poiscom ela chegam lançamentos de boxes especiais e até pequenos shows surpresa das bandas e artistas que abraçam a causa nas lojas pelo mundo.


E o mercado brasileiro?



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O mercado de discos de vinil no Brasil está, também, em crescimento. Em 2022, as vendas superaram 862 mil unidades, um aumento de 28,1% em relação a 2021. Isso representa 2,5% do mercado fonográfico nacional, um aumento de 0,3% em relação a 2021. Estima-se que as vendas em 2023 tenham superado 1 milhão de unidades e que o faturamento tenha chegado a R$3 milhões. 


Apesar da nova popularidade do vinil, Sylvio Fraga reconhece que o Brasil enfrenta dificuldades particulares devido à sua situação econômica. "Eu acho que o grande desafio em tornar o vinil mais popular ainda é o fato de que o Brasil é um país pobre, assim, o vinil nunca vai ser tão popular de novo porque é caro, um disco é caro, toca-discos é caro", ele resume. O preço de um LP é, em média, de R$100 a R$300 para um disco novo de um artista popular; sai por R$50 a R$200 se for usado de um artista clássico; já os raros e em ótimo estado de conservação começam em R$1.000.


Sylvio também aponta que, em um país onde o acesso à música digital através de plataformas de streaming é mais econômico e conveniente, o vinil pode não ser tão atraente para todos os consumidores. "Se a pessoa consegue acessar boa parte da música do planeta no YouTube ou se quiser assinar o Spotify, o LP não é uma prioridade na vida das pessoas e faz sentido num país como o Brasil", ele reconhece.


Enquanto o vinil continua a ganhar terreno, é importante reconhecer que seu apelo vai além de simplesmente ser uma forma de consumir música. Para muitos, o vinil representa uma conexão emocional com a arte e a história da música, uma experiência sensorial que transcende o digital. À medida que a indústria continua a evoluir, o vinil permanece como um símbolo de resiliência e apreciação pela forma física da arte musical.


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