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Turnê na gringa: modo de preparo

Atualizado: 11 de dez. de 2023

Desmistificando o mercado de shows para brasileiros no exterior com conselhos de quem já coleciona carimbos no passaporte


A sensação de que todo mundo está de férias na Europa quando se rola o feed do Instagram é, também, comum na vida profissional. Afinal, parece que estão todos tocando em festivais na gringa, fazendo o famoso networking, colocando o Duolingo pra jogo e batendo cartão nas feiras de música e negócios mundo afora. A verdade é que sim, há muitos artistas brasileiros com agendas internacionais, sejam eles nomes do pop e mainstream, sejam atrações nichadas do underground nacional. Existe boa demanda para sons brasileiros no exterior e pode ser só questão de tempo para quem ainda não pegou carona nesse avião com destino à felicidade. Mas e a vida de turnê internacional, é isso tudo mesmo? Ou é só perrengue?


Em muitos aspectos, a vida de músico no exterior é bem parecida com o cotidiano de viagens domésticas - deslocamentos, gigs, algum tempo ocioso, muita bagagem. Porém, há também diferenças enormes, com a necessidade de mais planejamento por lidar com outras formas de produção de eventos, emissão de vistos e, claro, diferentes línguas e moedas. Se antes essa possibilidade só se materializava para “artistas grandes”, agora ela é mais presente devido à proliferação de eventos alternativos para os mais variados públicos, do choro ao metal, da eletrônica ao jazz.


A cena psicodélica é uma que cresce fora do país e o Brasil sempre esteve bem servido nesta seara. A banda BIKE é um dos expoentes da atual geração da psicodelia e leva seu som para além das fronteiras. Eles já passaram por EUA, Portugal, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Itália, Suíça, Inglaterra, Escócia e País de Gales, fazendo escala inclusive na icônica rádio KEXP, em Seattle. A partir de um convite de evento na gringa, o grupo conseguiu viabilizar outras datas. É o famoso “aproveitar a viagem”. 



turnê internacional
BIKE em Austin, Texas (Crédito: Brain Productions Booking)


“Todas as turnês que fizemos fora do Brasil partiram do convite de um festival como show principal e a partir dele marcamos o restante da turnê. Elas variam muito, mas o ideal é ter uma rota confortável para fazer os shows sem ter viagens muito longas, normalmente as turnês tem shows durante toda a semana, é sempre possível tocar numa segunda ou terça-feira e ter um bom público e por isso sempre tentamos não ter day-off para a turnê render ao máximo, as nossas turnês fora daqui duraram entre 3 e 4 semanas”, recorda Julito Cavalcante, da BIKE.


Larissa Conforto, baterista que já acompanhou nomes como Paulinho Moska e Tiê e recentemente foi atração do Primavera Sound São Paulo 2023 com seu projeto solo ÀIYÉ, também tem desenvoltura nesse circuito. Ela já soma duas turnês europeias, passando por 7 países, além de tocar nos EUA, Uruguai, Chile e Argentina. Para Larissa, a turnê internacional parte justamente da troca com outros artistas locais e pensar as possibilidades que cada cena local oferece. A bússola deve apontar todo um panorama, e não apenas para a conexão com o público final.


“Quando a gente toma a decisão de fazer uma turnê, tem a ver com entender que o local tem uma cena que possa integrar a gente. Alguma produtora, alguma banda que se relaciona com o seu nicho. É mais sobre entender onde você está mirando o que esperar que já tenha um público pronto”, explica Larissa, que é ex-monitora da primeira edição do curso Music Marketing da Escola Música & Negócios/Instituto Gênesis (PUC Rio).



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Lê Almeida (Crédito: Melanie Radford)


Lê Almeida, músico que se desdobra em projetos com a sua banda Oruã, o Built to Spill e com seu projeto solo, concorda que os números das plataformas também não são um bom guia para decidir onde tocar.


“Não pensamos em nada baseado em ouvintes do Spotify. Acredito eu que em alguns países fora do Brasil existe uma cultura muito real e vívida sobre assistir um espetáculo, seja ele de qualquer ritmo ou segmento. Comecei a observar melhor como funciona uma noite de shows fora do que eu fui criado na minha cidade e no meu país. Nossa opção por tocar mais fora do Brasil basicamente é feita pelas aberturas que são muito maiores e tenho comprovado que se você faz um trabalho arrumado e com foco, você chega lá com perseverança”, ele entrega.


Mas Larissa Conforto já adianta: não existe receita de bolo. Tocar fora do país envolve questões culturais e operacionais que vão muito além do ato prazeroso de subir em um palco no exterior. A realidade de muitos artistas independentes é de jogar nas 11, atuando como booker, manager, produtor, técnico de som, roadie, maquiador e figurinista. As condições para viabilizar um show podem passar justamente por deixar a equipe em solo brasileiro e alçar voo sem uma rede de apoio própria.



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ÀIYÉ em Aveiro,Portugal (Crédito: Joana Magalhães)


“Não tem um processo específico, cada cidade, cada país tem um jeito diferente. Depende muito do tamanho do país, da cultura local, com a forma como eles fazem as coisas, se o país tem uma rede de apoio e depende muito da produtora também. Mapeei lugares, pequenos selos, bandas, lugares onde poderia me apresentar e contatos que tinha de outras turnês, que eu tinha feito com outros artistas. Durante a pandemia, eu me inscrevi para residências artísticas e passei, então fui fazer uma residência na Dinamarca e uma na França. Com isso, eu pude financiar minha ida e viabilizar todo o resto, fazer muitos contatos”, ela recorda.


Claro que esse cenário de um artista multi-tarefas não é ideal, e sempre que possível é importante viajar com uma equipe, por menor que seja. A figura do manager pode centralizar variadas funções que desgastam um artista na estrada. Ter a presença de um empresário ou produtor pode ser de grande valia para quem não se sente em casa tocando fora - literalmente. À frente da Brain Productions, Carlo Bruno Montalvão é especialista em rodar o mundo acompanhando artistas, como foi o caso das duas últimas edições do SXSW, onde realizou quase 50 shows com nomes de variados países, inclusive o Brasil. Ele já viajou por Europa e EUA com representantes do indie nacional como The Baggios e a própria BIKE, que em 2024 volta para a sua quarta turnê europeia, a maior já feita até então. 


“Um artista sem manager é como um carro sem condutor, ou com um condutor sem licença para dirigir. Vai ter que aprender na raça, vai bater o carro, vai errar. O papel do manager é vital para prever os contratempos, evitar percalços e, principalmente, encurtar os caminhos para que o artista atinja seus objetivos. Um manager bom geralmente tem já sua rede de networking montada e segura, já sabe para onde enviar o artista e como realizar, já tem parceiros seguros (festivais, feiras, venues) que conhecem seu trabalho. O mais importante na hora do artista cair na estrada para realizar sua primeira turnê internacional é ele estar seguro, com tudo detalhadamente explicado, claro e organizado. Muitos artistas acreditam que podem e insistem em realizar as coisas sozinhos, alguns até conseguem, mas isso é um erro. A curto prazo pode acontecer, uma sorte. A longo prazo, não funciona. Um artista sem um manager está fadado a gastar mais tempo para conseguir realizar as coisas, deixar pontas soltas, coisas pela metade e, até mesmo realizar menos shows do que poderia”, reflete ele, enquanto viaja pela Europa com a banda argentina Fin del Mundo.


Essa realidade varia de artista para artista, claro. Enquanto a experiência de alguns aponta para um costume local de marcar shows sem grande antecedência, outros indicam a tendência de agendamento prévio de até seis meses em alguns cenários.


“Boa parte dos shows tem um cachê fixo combinado e são poucas as vezes em que o show é na base da bilheteria, que é muito comum aqui no Brasil. A maioria dos shows que fizemos fora daqui tinham um booker organizando tudo e os shows são marcados com muita antecedência, no mínimo 6 meses pra conseguir as datas, os convites dos festivais costumam ser com mais antecedência ainda. Lá fora costumamos viajar de van e com todo o backline, normalmente o booker marca os shows, hospedagens e também disponibiliza a van e o backline, você pode optar por ter ou não um motorista, ou ter um técnico de som ou alguém na produção ajudando com o merchandise e outras demandas da viagem”, explica Julito Cavalcante.



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BIKE com a apresentadora da KEXP, Cheryl Waters (Crédito: Jake Hanson)


Para tanto show acontecer, não existe milagre: é preciso fazer a parte financeira fechar. “O maior desafio é sempre o mesmo: equilibrar as contas! Uma turnê no exterior custa caro e tem características muito distintas, não é como viajar pelo Brasil. Ademais, muitos artistas do Brasil tem uma visão muito romântica do que é fazer turnê, mas poucos sabem como realizar, ou de todas as demandas que surgem, os contratempos, os imensos e mínimos detalhes que precisam ser levados em conta, que vão desde o trajeto escolhido, até as necessidades de logística que incluem aluguel de backline (na Europa, assim como nos Estados Unidos/Canadá, o artista tem que viajar com seu backline próprio), hospedagem, alimentação durante as viagens, sem falar em problemas extra que podem acontecer, como o artista ficar enfermo durante a turnê”, alerta Carlo Bruno, citando uma intercorrência comum para quem muda de ambiente, de fuso horário e, não raro, de estação do ano! 


Sua atuação no mercado é sinônimo de experiência. Carlo Bruno é Diretor-Chefe da Brain Productions Booking (Global Booking and MGMT Music Agency) e Before Sunrise Records (selo de música indie), criador e apresentador do programa IndieAmérica na Mutante Radio e também colunista musical no Music Non Stop e Hits Perdidos. Já são 25 anos nessas funções, e sua expertise se tornou o curso “Booking Internacional. Como funciona?”, a ser realizado via Google Meet em data a ser anunciada em breve. 


Quem também tem ampla experiência em rodar o mundo fazendo música é Lê Almeida, que recentemente lançou o álbum “I FEEL IN THE SKY”, composto e gravado ao longo de turnês com passagens por variados países. Os carimbos no passaporte entregam 23 territórios, a maioria tocando com o Built to Spill em 2019. Mas em 2023, Lê esteve com o Oruã em mais de 60 shows pelos EUA e Europa entre março e julho. E encerra 2023 com shows pelo sul e sudeste do Brasil, além de uma passagem pelo Uruguai.



turnê internacional
A gira recente das Fin Del Mundo - em direção ao mar


Para ele, a banca é onde o artista independente pode realmente fazer grande diferença no orçamento. “Não se ganha tanto com o show se você não tem um merch. Nas últimas tours, vendemos todos os discos que tínhamos. Um selo de Atlanta faz os meus discos em vinil há um bom tempo por aqui e vendemos literalmente todas as cópias. Agora temos os últimos discos em vinil e isso fortalece muito o desenvolvimento financeiro. Eu gosto da experiência de ir a lojas de discos vender cópias dos nossos discos e conversar sobre o mercado, sobre as bandas”, ele explica direto dos EUA, onde está em residência artística no estado de Washington.


Por isso é necessário ter um itinerário que faça sentido para a realidade financeira, o tamanho da estrutura necessária e as possibilidades reais de cada país. Nem toda cidade que aparece entre aquelas com mais ouvintes no Spotify é um destino certeiro, porque circular por casas de shows fora da sua origem envolve uma gama de outros fatores. 


“Sempre levamos em conta o trajeto (rota da turnê) e a qualidade musical do projeto apresentado pelo artista. Números não dizem absolutamente nada! Números só servem para inflar egos. Por outro lado, os números servem para dar uma pequena ideia de onde poderá estar uma parte nova do seu público, mas nem sempre isso funciona. Trabalho com bandas que têm mais de 25 mil ouvintes em países como México, Estados Unidos, quando vejo isso, sinto que devo levar eles para esses lugares, mas nem sempre é fácil. Nem sempre os promotores locais pagam pelas passagens aéreas. Numa primeira turnê isso praticamente nunca acontece, a não ser que você seja a bola da vez”, entrega Montalvão.



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Lê Almeida (Crédito: Melanie Radford)


Embora o processo de levantar uma turnê internacional do zero possa parecer desafiador, o cenário lá fora é promissor. “A música brasileira no geral é muito bem recebida. Para nós existe muito espaço para explorar fora daqui, são inúmeros festivais ligados a música psicodélica, além de muito mais espaços para bandas de rock e vontade de conhecer música nova”, avalia Julito Cavalcante, da BIKE.


O que importa é olhar esse panorama com os pés no chão e entender que a cada nova gira, novas possibilidades vão se delineando. “Existem algumas facilidades lá como conseguir uma van e um backline decente para viajar e ter um mercado mais organizado, estimulado e curioso com a música underground. Mas o grande erro é achar que tudo é perfeito, pois não é”, conclui Julito.


Da parte do artista, há muitas formas de garantir que a ida para outros países saia conforme o planejado e renda os frutos desejados: formação de público, ganho de reputação em casa e ampliação da rede de contatos.


“É importante comer bem, dormir o máximo possível, e estar atento à saúde física e mental o tempo todo. Já vi bandas acabarem depois de uma turnê e já vi bandas ficarem ainda mais fortes. Muitos artistas quando chegam em outro país querem reproduzir o mesmo modus operandi com o qual atuam. Isso é um erro terrível, porque a não ser que você seja muito famoso no mundo todo, construir uma carreira no exterior denota que você precisa começar tudo do zero. Passo a passo, e precisa ter muita calma e inteligência emocional para conquistar o que deseja”, Carlo Bruno destaca.


Mesmo quando o itinerário passa por cenários mais conhecidos, como EUA e destinos mais badalados da Europa, é uma grande mudança de ritmo para toda a equipe. Sair do roteiro mais tradicional e bater em outras portas também tem o potencial de abrir espaços que até pouco tempo atrás não existiam a partir da boa receptividade da música brasileira na gringa.



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ÀIYÉ no Psicotrópicos Festival, em Berlim (Crédito: @osdefuego)


“As pessoas ficam muito interessadas quando falamos do Rio de Janeiro. Acho que é um elemento especial sobre a origem do som que fazemos. Eu sou nascido e criado na Baixada Fluminense, não tenho muita referência de visão artística na minha família e fui procurando novos mundos viajando. Acredito que as portas estão bem abertas. Já faz um certo tempo que o nosso som passou a sair um pouco da esfera do indie rock e passou a contar com elementos de free jazz, isso ampliou algumas coisas pra gente. O último show na Europa foi em um festival de jazz na Finlândia em uma ilha chamada Lonna. Bem atípico nos lugares que estávamos passando na época, mas acredito nessas aberturas relacionadas ao tipo de som que você perpetua”, Lê Almeida indica.


No fim das contas, uma turnê estruturada em bons contatos, preparação e conhecimento prévio dos cenários onde o artista está entrando tem tudo para dar certo. Imprevistos acontecem, porém um investimento realista e no longo prazo é muito mais sustentável para uma banda ou selo independente.


“Estude o mercado no qual você pretende atuar e levar o seu projeto artístico. Tente se inscrever e participar do maior número de feiras de música e festivais que seja possível ao redor do mundo ou nos territórios que você gostaria de atuar, conheça as pessoas que trabalham na indústria musical internacional e comece a construir seu networking internacional, mas principalmente, lembre-se que o mercado exterior é completamente distinto do Brasil. Para realizar turnês na Europa e Estados Unidos, por exemplo, o ideal é uma antecedência de um ano para poder preparar tudo, cada detalhe da turnê. A logística de uma turnê internacional é totalmente diferente e requer muito mais atenção em cada pequeno detalhe. Um erro em outro país pode custar muito caro e ruir todo o plano inicial”, Montalvão sinaliza.


Nada como decisões tomadas com informação para guiar uma carreira para além das linhas de fronteira de um território. Para quem estuda o mercado e realiza um bom planejamento estratégico - como os alunos do curso Music Marketing - o céu é o limite. 



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