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O impacto dos song camps no mercado musical

Esta é a segunda parte de um mergulho que estamos fazendo nos songwriting camps, encontros de compositores para criar vários dos hits que já tocam sem parar nos nossos fones de ouvido. Na primeira parte da matéria, mostramos como funcionam, na prática, estas sessões. Agora, vamos nos aprofundar nas consequências que os song camps já produzem no mercado fonográfico.


Para começo de conversa, é preciso lembrar que essa não é uma tendência recente. Os camps são parte integral da indústria da música há décadas e alguns dos maiores sucessos dos últimos anos vieram de sessões colaborativas de composição. Basta citar títulos como “Baby One More Time”, “Since U Been Gone”, “Can’t Feel My Face”, “Sorry”, “Don’t Start Now” e “Watermelon Sugar” para notar que sua importância vem sendo provada a cada nova fase do pop global. 





De volta às origens


Embora a composição colaborativa remonte a meados do século XX e tenha atingido auges com parcerias como John Lennon & Paul McCartney, Gerry Goffin & Carole King e Elton John & Bernie Taupin, os camps como conhecemos hoje foram fortemente influenciados por um sujeito que viria a comandar a indústria do pop por décadas: Max Martin. 


O mercado musical sueco desempenhou um papel crucial na popularização dos acampamentos organizados para composição de músicas. Sua indústria fomentou uma cultura de escrita colaborativa, com acampamentos nos quais compositores, produtores e artistas se uniam para criar sucessos. O que começou localmente logo se tornaria uma “receita de bolo” para guiar o pop produzido nos anos seguintes.


Nas décadas de 1990 e 2000, a Suécia viu uma explosão de sucesso na música pop com artistas como ABBA e Ace of Base. Logo em seguida, os jovens produtores Denniz Pop e seu pupilo, um metaleiro que entraria para a história como Max Martin, deixariam sua marca. Hoje, Martin carrega o legado dos beats de Denniz que ajudaram a definir um novo som do pop, chegando a 25 hits número 1 - menos apenas que Lennon e McCartney. 


O impacto de Max Martin na indústria musical é indiscutível. Ele foi fundamental para moldar o som da música pop do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, trabalhando com artistas como Britney Spears, Backstreet Boys e NSYNC. A abordagem de Martin para a composição envolvia reunir diversos talentos em intensas sessões de composição para criar sucessos comerciais. Quem tem curiosidade sobre essa cena efervescente que emergiu de Estocolmo precisa conferir o episódio do FofoCoffee com Niclas Molinder, sócio de Martin e Bjorn Ulvaeus, produtores e compositores suecos que marcaram toda essa geração.


À medida que a indústria musical se tornou mais globalizada, compositores e produtores de diferentes países e origens culturais passaram a colaborar com mais frequência. É conhecida a história do projeto The Postal Service, uma colaboração entre os músicos Ben Gibbard (vocalista do Death Cab For Cutie) e Jimmy Tamborello (do Dntel), que gravaram “Give Up”, um álbum icônico para o indie até hoje, usando o bom e velho serviço dos correios americanos. Eles enviavam gravações via correspondência de costa a costa dos Estados Unidos.


Embora pareça produto de muito tempo atrás, o The Postal Service de 2001 foi possivelmente uma das últimas grandes colaborações analógicas à distância. As décadas seguintes garantiram avanços rápidos que facilitaram muito as colaborações com múltiplos artistas, produtores, beatmakers e compositores. Hoje, muitos desses encontros, presenciais ou online, são organizados por editoras musicais, gravadoras e associações de compositores, alguns dos principais interessados na máquina de hits que pode emergir de um camp bem estruturado.


Com o tempo, os song camps se tornaram mais populares e diversificados, atendendo a variados gêneros e estilos musicais. Hoje, eles continuam sendo uma parte essencial do processo de criação musical, incentivando a colaboração, a criatividade e a produção de sucessos que alcançam o topo das paradas.





Impacto palpável


Os song camps continuam sendo altamente benéficos para as editoras e compositores. Além de gerar resultados surpreendentes e contribuir para a qualidade do repertório, a colaboração entre compositores tem levado ao surgimento de sucessos musicais de forma mais consistente, com parcerias continuando de forma orgânica mesmo após a dissolução de um acampamento. O feedback criativo também tem sido positivo, mostrando como a prática de reunir diferentes talentos tem impulsionado a criatividade e o sucesso de canções.


Não é por acaso que o mercado brasileiro - o maior da América Latina - vem abraçando, cada vez mais, os song camps como uma das principais estratégias para nutrir um contexto criativo prolífico e diverso. 


“A popularização desse movimento no Brasil nos últimos anos pode ser atribuída a diversos fatores, entre eles, destacam-se a crescente valorização do trabalho autoral, a busca por novas formas de estimular a criatividade na música e o sucesso comprovado de song camps em outras regiões, o que incentivou sua adoção no cenário musical brasileiro”, opina Décio Cruz, Diretor A&R da Warner Chappell Music Brasil.


Já a cantora, compositora e produtora Mahmundi, experiente participante de camps, vê a alta rotatividade dos lançamentos de singles e álbuns como um dos principais fatores para o estímulo à música ainda na sua gênese: a composição.


“A gente está tendo uma demanda maior. E acho que tem um novo tipo de modelo artístico que está sendo muito interessante acompanhar, que são jovens que já produzem suas músicas com pessoas, já vem com os temas muito específicos. Tem uma demanda muito de série, de trilha sonora. Então eu acho que por isso a frequência. Tem muito artista sendo lançado, muita coisa que está estourando e que está viralizando, que as pessoas também estão se inteirando e estão vendo que está bem mais fácil o processo de compor. Isso amplia as cenas, é muito massa de ver, de acompanhar”, Mahmundi comemora.


Tudo isso leva a crer que os song camps não serão uma tendência passageira, e sim uma nova estrutura para impulsionar a criação musical. Não se trata meramente de gerar volume de novas canções, mas também de garantir que elas irão engajar, ser coerentes com o cenário atual, refletir gostos e visões diversas. Embora seja possível para artistas e selos independentes realizarem seus próprios acampamentos, o fato de que as major labels investem tempo e dinheiro para estimular essas estruturas dá mais aporte aos compositores e comprova que há um potencial real nessa prática, com uma visão 360º do processo. 


“Hoje em dia essa coisa de composição e produção estão muito coladas, porque uma música pode ter uma letra ali com os compositores, mas o arranjo, o vídeo, o que for também configura essa coisa dos camps. Então faz todo mundo junto, beatmakers e compositores. Tem vários formatos, mas é muito bom de estar de olho nessa cena. A coisa tá mudando muito e tem que estar aberto às possibilidades. A gente pode chegar num resultado mais legal com mais gente. Sou super a favor também de quem faz sozinho, de quem não curte. Acho que o importante é fazer, expandir a ideia e ter mais música no mundo”, conclui Mahmundi.


A julgar pelos lançamentos cada vez mais volumosos nas plataformas, música é o que não falta. Ainda bem.


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